A tecnologia trouxe a possibilidade de se fazer cinema com um celular, mas isso traz consigo uma poluição audiovisual. Como navegar nessa nova realidade? Qual é a responsabilidade dos cineastas de hoje diante dessa realidade?
Jiddu: Concordo com você, inclusive no começo do meu projeto eu tinha consciência de que estava contribuindo muito mais para a poluição visual do que para o cinema em si. Mas acho que havia uma possibilidade! Que não era bem o discurso que os agentes que produzem cinema davam...
Eu acho que nós, no Brasil, temos que aprender a realizar primeiro e para que isso aconteça é necessário ter coragem de se expor! Acho hoje meus filmes melhoraram muito, e agora eu entendo exatamente a extensão do risco que corri! Mas parece que o projeto foi se salvando pelas minhas escolhas e também pela minha intenção!
Um processo de formação, até meio autodidata...
Jiddu: Isso mesmo! Eu assumi a minha condição terceiromundista, a minha probreza... Na verdade eu sou inspirado por um cineasta de São Paulo de quem nunca vi nenhum filme mas só de saber da história dele me emociono. O
Ozualdo Candeias! Dizem que ele foi o único cineasta brasileiro que terminava de fazer um filme e voltava pra vidinha pobre dele onde faltava tudo. Na verdade ele foi um exemplo de que o sonho do cinema não podia ficar restrito à classe média que tem acesso ao estudo e aos equipamentos mais caros! Então, nesse sentido, o cinema foi um encontro da inspiração com a possibilidade!
Quanto tempo o cinema possível tem de estrada e quantos rebentos ele já produziu?
Jiddu: Bom, eu produzi muitos filmes mas, claro, meu projeto está numa fase de triagem e dos quase 100 filmes que fiz nos últimos 2 anos e meio consideram pelo menos uns 20. Sendo que eu faço vários experimentos, pois, meu objetivo principal é entender o processo de um filme... então, eu faço vários tipos de audiovisual: documentários,
clipes, ficção, cinepoema... e muito material experimental!
E onde é que esses filmes vão parar?
Jiddu: Pois é, pouca gente sabe que sou publicitário de formação. Então, meus filmes são muito mais assistidos do que parecem! Eu tenho os canais de usuário no Youtube, são 6 ao todo, onde classifico os filmes por estilo. Mas também já participei de diversas mostras no Rio Grande do Sul, no Amapá, No Rio de Janeiro e aqui em Cabo Frio meus filmes foram mostrados no Cine Tribal e no meu cineclube itinerante, o
Cine Mosquito. O que eu evito são os festivais competitivos!
Por que evita os festivais competitivos?
Jiddu: Percebi que os filmes feitos com baixar resolução ainda não são levados muito a sério nos festivais!
É verdade. Será preconceito? Burrice? Elitismo?
Jiddu: É complicado mostrar o filme se ele não for contextualizado antes! Aí fica parecendo que a gente não sabe fazer e na verdade não é esta a discussão que me interessa. O cinema de baixa resolução é uma estratégia de inserção social e aí entra o projeto que desenvolvi na
ONG CECIP durante um ano!
Fala mais sobre o trabalho no CECIP...
Jiddu: Ensinei a técnica de Cinema Possível para professores da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, e fizemos duas mostras, tudo através do CECIP.
E que técnica é essa?
Jiddu: A idéia é convencer o professor a editar seu próprio acervo. Numa primeira fase a gente não entra com o discurso do OLHAR, e sim com a estratégia de implementar um novo hábito nas pessoas de editar seu próprio material audiovisual!
Reciclagem audiovisual...
Jiddu: É importante construir esse hábito e ensinar o pessoal a trabalhar com software simples... e o mais simples de todos é o MOVIE MAKER. Só então, numa segunda faze entramos com o discurso cinematográfico de fato!
Como é o seu processo de trabalho?
Jiddu: Meu processo começou muito compulsivo, tive que aprender tudo sozinho! Filmava tudo o que via, fazia um filme e depois avaliava o resultado. Quando conseguia a chegar numa síntese chamava um ator para fazer um filme com ele!
Não entendi, explica melhor...
Jiddu: Eu experimentava as linguagens de cinema, e ao mesmo tempo estudava o limite técnico da máquina, do programa de edição e só fazia um filme quando tinha o domínio técnico do que eu queria dizer! É por isso que o cinema possível não gera filmes em grande quantidade porque ele contém uma estratégia de experimentação auto-didática! Anoto tudo, inclusive fiz uma apostila do método...
100 filme em 2 anos não é uma grande quantidade?
Jiddu: Como eu te disse antes, não considero 100 filmes como produto e sim, algo em torno de 20 filmes!
Mesmo assim Jiddu, é quase um filme por mês!
Jiddu: Coloco como resultado específico em 2 anos algo em torno de 20 filmes onde considero o resultado. Mas acho que teu processo não engloba as fazes do cinema possível, acredito que seja uma outra filosofia! No meu caso existe uma investigação e experimentação muito aberta onde a quantidade é muito necessária nesta fase!
Mas na prática Jiddu, como que é? Que câmera você usa, em que condições você produz? Com que equipe?
Jiddu: Pois é, você tocou num assunto polêmico! Eu não considero a tecnologia um fator limitante, mas sim instigante. Então eu trabalho atualmente com uma câmera fotográfica de 10 megapixels... Não estamos falando de um cinema convencional, mas de um cinema que se apóia na precariedade e na invenção de si mesmo!
O cinema sempre foi visto como uma arte coletiva, e agora esta se tornando uma arte individual. Como vc vê isso? Quem faz o cinema possível, o Jiddu e mais alguém?
Jiddu: Tudo no cinema possível é fruto de trabalho de que envolve muitas pessoas, mas não existe a organização clássica do cinema indústria! Nos meus filmes eu trabalho com músicos, atores, a diversos tipos de apoio... OS APOIOS POSSÍVEIS!
O que acontece é que o fator coletivo no cinema depende de diversas questões! O Cinema Possível não é um coletivo de 10 ou 20 pessoas, mas nenhum filme que faço é solitário, entende?
Quando fui estudar na Darcy Ribeiro eu tinha uma produção e queria discutir o caminho que tava trilhando, a professora, Inez Cabral, foi muito aberta e entendeu profundamente minha intenção...
E o Cine-Mosquito, ver filme juntinho é mais gostoso?
Jiddu: Pois é, o Cine Mosquito é mais um passo para romper com a solidão e preconceito. Muitos dos filmes produzidos no Brasil, não só meus, não têm como ser mostrado!
A idéia de um cineclube itinerante que vai na casa das pessoas gerou bastante audiência para filmes de muitos cineastas... inclusive o filme Curtindo a Vida Armado foi mostrado em 3 sessões para públicos diferentes dentro de Cabo Frio, tendo chegado a um público de aproximadamente 60 pessoas. Esse número parece que não é nada se pensarmos no cineclube tradicional ou na sala de exibição, mas é um número que aponta para uma tendência que pode mudar a forma de ver cinema nacional.
Como funciona o Cine-Mosquito?
Jiddu: Na verdade não existe nenhuma novidade em se mostrar filmes na casa das pessoas mas o Cine Mosquito tem algo de novo que é dar um caráter organizacional para a coisa!
Uma delas é a curadoria dos filmes, os critérios de escolha que devem ser discutidos com o dono da casa, a outra é evitar transformar o encontro num evento com telão e tal. Queremos ver os filmes na TV normal que as pessoas possuem em suas casas. E o evento só acontece quando alguém oferece sua casa. Este ano eu realizei apenas um no Amapá, dentro de uma universidade. O conceito ainda está sendo implementado, por isso, é difícil dar uma definição técnica. Mas se tivermos 12 convites durante um ano, teremos um Cine Mosquito por mês, até agora fizemos 6, todos os eventos são catalogados no
blog.
Tá, então convido você para uma exibição na minha casa!
Jiddu: Seria ótimo! Existe uma questão de hábito aí e é onde o projeto ganha! No futuro as pessoas vão receber dinheiro para exibir filmes na sua casa! Essa é uma tendência... não sou eu que digo isso e sim o DOMÊNICO DI MASI
Mas se a casa é minha e a curadoria também, qual é o diferencial?
Jiddu: A Curadoria não é sua apenas é nossa! Existem critérios para que uma exibição na sua casa possa se chamar Cine Mosquito, entende?
Quais os critérios?
Jiddu: Estou tentando explicar o que é que acontece e porque o Cine Mosquito ainda não é uma idéia usual, depende de muita reflexão, diálogo e por isso ainda não temos como garantir uma programação mais continuada do evento!
A TV é um aparelho que compramos para exibir filmes consensuais. Ela é um terminal periférico para a exibição de conteúdos veículados não necessariamente por nós!
A discussão que o Cine Mosquito levanta é a apropriação desse objeto caseiro para a exibição de filmes escolhidos pelo dono da casa e direcionada ao público que ele quer mostrar!
A idéia parece simples mas não é, porque é um conceito amparado numa mudança da forma como nos apropriamos das imagens produzidas no planeta!
por joão xavi em 07.07.2009