E agora, o que vão dizer?
Em meio a turbulenta discussão sobre a manutenção ou não de mastro e bandeira (que, por sinal, vive 'avoando' e fica semanas sem retorno) no topo do Morro da Guia, que repentinamente ganhou tal importância a ponto de diversos Secretários emitirem opinião a respeito, a antiga residência do saudoso fotógrafo Wolney é demolida criminosamente na calada da noite.
Fotógrafo mais célebre da cidade, filho do também fotógrafo Zinho Pereira, aprimorou sua técnica com Augusto Malta, um dos fotógragfos mais importantes da história, cujo trabalho registrou um dos períodos em que Rio, então capital brasileira, passava por grandes transformações urbanísticas operadas por Pereira Passos. Wolney fez o mesmo pela Região dos Lagos no seu momento de maior transformação.
Mas o que importa à cidade a demolição da antiga casa e laboratório do maior artista que Cabo Frio já produziu? Que diferença faz se uma casa de mais de duzentos anos é demolida mesmo quando há Decisão do Juiz Walnio Pacheco determinando à restauração pela Prefeitura sob pena de multa milionária?
Estamos vivendo (e isso já tem bem mais de um reinado) um período em Cabo Frio onde o Estado de Direito não é respeitado pela Prefeitura. Aqui já não é mais Cabo Frio, mas uma Pasárgada onde quem é amigo do Rei tudo pode e, portanto, cada vez mais barraquinhas surgem na Praia do Forte.
Mas para alguns importa mais discutir a importância da bandeira, fincada no Morro da Guia em 2003, em favor da garantia da cultura e manutenção do nacionalismo cabofriense. Esquecem que, religioso por excelência, o Morro da Guia segue perdendo seu antigo nome, herdado da Santa cuja imagem teimava em aparecer repentinamento no topo do morro.
Mas e agora, o que vão dizer?
Seria razoável escutar a opinião dos mesmos Secretários, ainda que fosse para retomar o mesmo pífio discurso de outrora: "de Wolney o que importa é o acervo" (que diga-se de passagem, continua sem devido cuidado da Prefeitura). Porém, das autoridades locais nada espero. Mas a mídia local deve atenção à antiga casa que abrigou o ilustre fotógrafo. Aliás, não deve nada, pois o bom jornalismo opera sem dívidas. E nem se sujeita a ameaças ou promessas.
Manoel Vieira
Arquiteto, urbanista e pesquisador do patrimônio cultural de Cabo Frio
por Ravi Arrabal em 04.02.2010